Auditoria de Vestimentas de Proteção Térmica: Deficiências da Certificação podem ser supridas por esse procedimento

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Márcio Bottaro

Doutor em Tecnologia e Especialista de Laboratório no IEE-USP
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No setor elétrico, de petróleo, gás, mineração e indústrias de alto risco, as vestimentas de proteção térmica atuam como a última barreira de mitigação contra lesões térmicas fatais. Sob o atual arcabouço normativo, a obtenção do Certificado de Aprovação (CA) exige ensaios laboratoriais rigorosos e compulsórios, que validam o desempenho do EPI frente a arcos elétricos e fogo repentino conforme padrões internacionais.

Entretanto a pergunta que gestores de SST mais tem feito atualmente não é “Este EPI é certificado?”, mas sim “Qual a consistência da proteção térmica desse EPI?”

Um ensaio e um CA

 

Atualmente, a legislação exige que uma vestimenta de proteção térmica contra arcos elétricos e fogo repentino seja certificada com base em ensaios de tipo. Ou seja, uma amostra significativa aprovada em laboratório concede ao fabricante o direito de produzir e vender seu produto que em tese mantém consistência com esses resultados, já que auditorias do processo produtivo vão tentar garantir a reprodutibilidade do EPI.

É um passo importante dado em dezembro de 2023, com a revisão da portaria MTP 672, mas isso é garantia de proteção?

As normas técnicas, particularmente no caso dos ensaios de vestimentas de proteção contra arco elétrico adotam o uso de ensaio único do tecido – para caracterização –, e da vestimenta de maneira subsequente para avaliação de desempenho. Assim, um único ensaio de base de resistência ao arco elétrico é a base de certificação de uma vestimenta de proteção térmica, e isso é aplicado mundialmente.

Para os ensaios específicos de fogo repentino, metodologia similar é adotada, com uma média de 3 ensaios para caracterização do percentual de queimadura corpórea.

Mesmo antes do processo de certificação, a obtenção do CA era realizada da mesma maneira, no entanto segregada ao uso de laboratórios nacionais.

Estudos do mesmo ano da promulgação da portaria em 2023, promovidos por pesquisadores norte-americanos, abriram a discussão sobre um tema até hoje polêmico na indústria da proteção térmica: O problema na variabilidade do ATPV (Arc Thermal Performance Value).

O ATPV é um dos indicadores normativos de resistência ao arco elétrico mais empregado no mundo, e está alicerçado em um procedimento laboratorial padronizado de ensaio de arco aberto que indica o valor de energia incidente o qual o material apresenta uma média ou tendência logística (50% de probabilidade) de proteção contra passagem de calor que promova queimaduras de segundo grau.

O procedimento por si só é complexo e carregado de questionamentos técnicos oriundos dos próprios laboratórios. As pesquisas internacionais revelaram em dois tecidos uma variabilidade de 41 % no ATPV em um grupo de pouco mais de 50 ensaios completos ao longo do tempo, entre os anos de 2020 e 2022, utilizando-se diferentes laboratórios. Um estudo brasileiro em 2024 mostrou uma variabilidade de 38 % no ATPV em um grupo de 9 tecidos e mais de 200 ensaios, entre os anos de 2018 e 2022, também realizados em diferentes laboratórios.

Em 2025, uma nova análise em um grupo de 5 tecidos, com relação ao ATPV e incluindo o novo parâmetro internacional ELIM (Incident Energy Limit) que pressupõe 100 % de proteção contra passagem de calor que promova queimaduras de segundo grau, revelaram variabilidades superiores a 50 %, entre os anos de 2018 e 2024.

A Variabilidade na Proteção térmica

 

A origem de tantas variações não reside somente no material como constatado na pesquisa, mas na metodologia de ensaio também. No entanto é importante levar em consideração que o tecido, diferente de um componente ordinário quando submetido a ensaios térmicos, é um material orgânico/sintético sujeito a variações como por exemplo: Gramatura, Processo de tingimento e acabamento, Construção – trama e urdidura, entre outros.

Já o ensaio carrega outras incertezas como a forma como são obtidas as energias incidentes e transmitidas médias, o processo de cálculo do ATPV (estimada em 10 % pela literatura científica nos tecidos com ATPV entre 8 e 12 cal/cm², podendo ser maiores com o aumento do ATPV), variações interlaboratoriais, entre outras.

Enquanto o procedimento de ensaio não é aprimorado nas normas técnicas, algumas ações são recomendadas pelos pesquisadores nacionais e internacionais, entre elas:

  • Uso de valores mais conservadores
  • Análise de dados e correlação temporal
  • Prática de uso de mais de um laboratório para avaliação dos resultados

Por que a Auditoria de Recebimento vem se tornando indispensável?

 

A auditoria de EPI para avaliação da vida útil e da manutenção da proteção ao longo do tempo é uma prática recomendada e adotada há muitos anos, como maneira de implementar melhorias em um EPI ou ações corretivas em alguns casos.

A preocupação com a auditoria de recebimento surge da dificuldade em termos um processo de certificação que consiga atentar para toda a variabilidade apresentada na literatura. Além disso, a revisão constante de normas regulamentadoras como NR 1, NR6 e mais recentemente NR 10, acabam fomentando a busca por maior conhecimento na área de proteção térmica e isso alavancou nos últimos anos essa preocupação com a manutenção da qualidade e da proteção dos EPI entregues ao mercado.

As auditorias de recebimento para EPI contra efeitos térmicos de arcos elétricos vêm crescendo no Brasil desde 2024, e já revelam pontos de atenção a ser observados por todos os envolvidos, dentre eles, as inconsistências com as informações declaradas na certificação e o desempenho real colocado a prova de ensaios.

Como orientação geral, é fundamental a concordância do fornecedor relativa as auditorias de recebimento e vida-útil já ser tratada em contrato durante o processo de seleção do EPI, pois ensaios sem o conhecimento do proprietário original do produto – fabricante – pode resultar em implicações legais.

Normas Técnicas estão colaborando com a seleção dos EPI

 

A seleção de EPIs para proteção térmica não é um processo comum de aquisição. Hoje temos no Brasil, para os EPIs para arco elétrico a norma ABNT NBR 17227 que traz algumas orientações fundamentais, mas precisamos ir além. Na área de Fogo Repentino essa informação é ainda mais escassa, com algumas referências internacionais como a NFPA 2113, no entanto a análise de riscos nesse setor é ainda bastante complexa.

As empresas líderes em segurança já implementaram programas de Auditoria de Qualidade em Campo, onde amostras aleatórias do estoque são enviadas para ensaios de auditoria de acompanhamento. É uma boa prática que vem ganhando mais espaço e promovendo melhorias na segurança do trabalhador.

 

Referências

  1. Hoagland, C. Maurice, M. Eblen and J. Phillips, “Matching ARC Rated PPE to the Hazard: Why Does it Work?,” IEEE IAS Electrical Safety Workshop (ESW), Reno, NV, USA, 2020, pp. 1-8, doi: 10.1109/ESW42757.2020.9188328.
  2. IEC Standard: Live working – Protective clothing against the thermal hazards of an electric arc – Part 2: Requirements, IEC 61482-2: 2018.
  3. Bottaro, H. Eichinger. “Uncertainties in the heat energy calculation process and influences on determination of arc thermal performance value (ATPV) of heat- and flame-resistant materials tests”. Measurement, Volume 123, July 2018, Pages 275-284
  4. Atq et al., “Arc rating variability and repeatability: why does fabric arc rating vary and which value is correct?”. In IEEE Electrical Safety Workshop, Reno, NV (USA). November 2023. pp. 53-59.
  5. Atiq and J. Cliver, “How Variability in Arc Ratings is Stifling Innovation in Development of Arc Rated Clothing,” 2024 IEEE IAS Electrical Safety Workshop (ESW), Tucson, AZ, USA, 2024, pp. 1-6, doi: 10.1109/ESW52258.2024.10752768.
  6. Bottaro, L. Eduardo Caires, P. Futoshi Obase, T. Ohara de Carvalho and H. Tatizawa, “A Comprehensive Analysis of the Influence of Thermal Insulating Materials on Arc Rating Tests,” in IEEE Transactions on Instrumentation and Measurement, vol. 74, pp. 1-9, 2025, Art no. 1500609, doi: 10.1109/TIM.2025.3529562.
  7. BOTTARO, Marcio. O processo de seleção do EPI para arco elétrico. Eletricidade Moderna, [S. l.], p. 20–22, 2023.
  8. E. Caires, M. Bottaro, T. O. de Carvalho, P. F. Obase, R. Masaro and H. Tatizawa, “ELIM – An analysis of the impact of variability in the new IEC arc rating parameter compared to the well-known ATPV,” 2025 IEEE ESW Brazil – Electrical Safety Workshop Brazil (ESW Brazil), São Paulo, Brazil, 2025, pp. 1-6, doi: 10.1109/ESWBrazil64921.2025.11277496.
  9. MARDEGAN, Cláudio S.; RESENDE, Filipe B.; BOTTARO, Márcio. Arco elétrico e energia incidente: metodologias de cálculo em sistemas AC e DC, EPIs, EPCs, técnicas para redução da EI em equipamentos e dispositivos para melhorar a segurança. 1° ed ed. São Paulo: Ed. do Autor, 2025.
  10. NATIONAL FIRE PROTECTION ASSOCIATION. NFPA 2113: Standard on Selection, Care, Use, and Maintenance of Flame-Resistant Garments for Protection of Industrial Personnel Against Short-Duration Thermal Exposures from Fire. Quincy: NFPA, 2025
  11. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 17227: Arco elétrico — Gerenciamento de risco de energia incidente, precauções e métodos de cálculo. Rio de Janeiro: ABNT, 2024.

 

Márcio Bottaro

Doutor em Tecnologia e Especialista de Laboratório no IEE-USP

Márcio Bottaro é referência nacional em segurança com arco elétrico e proteção térmica. Graduado em Tecnologia em Saúde, com ênfase em Eletrônica, ele é especialista em Engenharia da Qualidade pela Escola Politécnica da USP (POLI-USP) e mestre e doutor em Tecnologia pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN-USP), autarquia associada à Universidade de São Paulo.

Desde 1996, atua como Especialista de Laboratório no Instituto de Energia e Ambiente da USP (IEE-USP). Em 2016, coordenou tecnicamente o projeto ANP/Petrobras/IEE-USP que resultou na criação do Laboratório Brasileiro de Arco Elétrico, estrutura fundamental para ensaios e desenvolvimento de soluções voltadas à proteção de trabalhadores expostos a riscos elétricos.

Bottaro coordena também a Comissão de Estudos de Proteção Térmica do ABNT/CB-032 (Comitê Brasileiro de Equipamentos de Proteção Individual), é especialista brasileiro no IEC TC 78 – Live Working e Coordenador-Geral do IEEE IAS - Electrical Safety Workshop Brasil, consolidando sua atuação nos principais fóruns técnicos nacionais e internacionais sobre segurança elétrica.