Cremes protetores da pele contra agentes químicos

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Lilian Wesendonck

Farmacêutica Industrial
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A pele é o maior órgão do ser humano, protegendo o corpo contra as mais variadas agressões externas, e precisa de atenção quando tratamos de Segurança e Saúde no Trabalho (SST). Em   ambientes de trabalho com exposição a substâncias como graxa, óleos, solventes, tintas, cimento, cal, argamassa, ácidos ou álcalis, é comum o aparecimento de dermatites alérgicas de contato ou dermatites irritativas de contato. Nesses casos, a pele dos trabalhadores, ao ser exposta a um agente químico sem a devida proteção, tem sua camada lipídica removida, o que a resseca ocasionando inclusive a entrada de agentes patogênicos.

Muito comum principalmente nos trabalhadores da construção civil e da indústria metalúrgica, as doenças de pele também aparecem com frequência em colaboradores da indústria automotiva, profissionais da saúde, manipuladores de alimentos e funcionários de indústrias siderúrgicas e petrolíferas, mais precisamente como dermatite de contato irritante crônica.

A partir da sua inclusão na Norma Regulamentadora nº 06 (NR-06), as empresas passaram a ter a obrigação de adotar os cremes protetores da pele contra agentes químicos, no Brasil. Atuando como uma película protetiva entre a pele e os agentes químicos, os cremes de proteção permitem que as mãos mantenham flexibilidade e sentido tátil sempre que o uso de luvas de proteção não for possível. Seja porque a atividade exige o tato do trabalhador ou porque o seu uso expõe o funcionário a riscos de acidentes.

Embora sejam utilizados principalmente nas mãos e braços, não se restringem apenas aos membros superiores, sendo indicados ainda para todas as regiões em que ocorre o contato com o agente agressivo. Ao reforçarem as funções protetoras da barreira epidérmica, os cremes de proteção promovem hidratação, permitindo que ela não resseque e fissure em contato com agentes agressivos que possam estar nos ambientes de trabalho.

O texto que classifica os produtos como Equipamentos de Proteção Individual (EPI), atualizado em 1994, prevê que eles só poderão ser postos à venda ou utilizados como EPI mediante o CA (Certificado de Aprovação), expedido pelo Ministério do Trabalho.

A versão mais recente, publicada em 2018, da norma ABNT 16.276 (Cremes protetores de segurança contra agentes químicos – Requisitos e métodos de ensaio) estabelece os requisitos para regulamentação dos cremes protetores.

O primeiro ponto a ser verificado é se o creme de proteção está enquadrado na categoria ‘Cosmético Grau 2’ da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Para isso, os fabricantes destes produtos precisam ser licenciados como produtores de cosméticos junto ao órgão e notificar/registrar o creme protetor.

Após notificação do produto na Anvisa – Agência Nacional de Vigilância Sanitária, o creme deve ser testado de acordo com a ABNT 16.276 contra os seguintes agentes: água, tolueno, xileno, benzina, querosene, aguarrás, thinner, metil etil cetona, gasolina, óleo mineral, óleo diesel, acetona, pós em geral, percloroetileno, cloreto de metileno, tintas, adesivos, ácido fosfórico (15%), ácido clorídrico (15%), ácido sulfúrico (15%), hidróxido de sódio (10%).

Com a emissão dos laudos comprobatórios da eficácia dos cremes frente aos diversos agentes químicos testados pode ser iniciado o processo de obtenção do CA. Para conseguir o certificado, é necessário que os fabricantes comprovem a capacidade de proteção do creme por meio de ensaios realizados por laboratório qualificado. Eles também precisam garantir que o produto não causará irritação/sensibilização na pele dos trabalhadores, e nem provocará ação reagente.

A escolha do creme de proteção mais adequado para garantir a saúde da pele do trabalhador dependerá do tipo de risco químico ao qual ele está exposto. Para fazer a seleção correta do EPI, uma informação importante é que os cremes protetores de segurança são divididos em três grupos: Água Resistente, Óleo Resistente e Cremes Especiais.

No Grupo 1, Água Resistente estão inclusos todos os cremes protetores que, quando aplicados à pele dos colaboradores, não são facilmente removíveis com água. Seu uso é indicado para aplicação na pele de trabalhadores em contato com substâncias solúveis/diluídas em água, como: álcool + água; querosene + água; tinta + água; solventes em geral + água; óleo de corte etc.

No Grupo 2, Óleo resistente estão os produtos indicados aos profissionais expostos a óleos e substâncias apolares, insolúveis em água, como: álcool; querosene; tintas; graxas; colas e solventes em geral, muito encontrados nos setores de manutenção. Também apresentando propriedades hidratantes e emolientes, podendo conter ou não silicone, apresentam como diferencial a possibilidade de solubilização em água, facilitando a sua remoção da pele.

No Grupo 3, Cremes Especiais estão aqueles em que a característica água ou óleo resistente não é considerada a mais importante e suas indicações e usos definidos são especificados pelo fabricante. No rótulo há informações sobre sua ação protetiva a diversos tipos de agentes químicos, tintas, ácidos e bases. Eles podem formar uma barreira na pele contra meios ácidos e alcalinos (básicos), além da proteção aos demais agentes químicos. Os cremes de proteção especiais também podem proteger contra agentes biológicos com ação antisséptica que impede a proliferação de microrganismos, reduzindo o risco de contaminação por fungos e bactérias, além da proteção contra agentes químicos.

Entretanto, ainda que se tenha o melhor creme de proteção, a aplicação inadequada prejudica a eficácia do produto. Por isso, é imprescindível que, além de uma compra acertada, os colaboradores sejam orientados sobre como aplicar o EPI corretamente, assim como devem ser informados a respeito dos cuidados que precisam ser tomados após essa aplicação.

Os profissionais precisam lavar bem as mãos antes de aplicarem o creme de proteção. Além de estar limpa, a pele deve estar seca para facilitar a espalhabilidade do produto. Feito isto, aplica-se cerca de duas gramas do creme nas mãos e mais uma a duas gramas nas outras regiões em contato com o agente agressivo, antes do início da atividade laboral, com massagens que ajudam na sua absorção.

Importante mencionar que de nada adianta o usuário aplicar o creme de proteção e lavar as mãos com soluções como solventes, desengraxantes para máquinas ou com sabão em pedra, por exemplo, que contém elevada concentração de soda cáustica e outros componentes que acabam prejudicando a pele do trabalhador. Com ação hidratante e protetora, o creme é removido na lavagem com água e sabão e precisa ser reaplicado sempre que houver higienização da pele.

O creme de proteção costuma apresentar resultado satisfatório por quatro horas, protegendo a pele do contato com substâncias agressivas.

Doenças cutâneas ocasionas por contato com agente químico.

Dermatite por cimento

Eczema por látex (uso de luvas)

Dermatite por óleo solúvel

Dermatite de contato pelo uso de solventes

Lilian Wesendonck

Farmacêutica Industrial
Farmacêutica industrial e bacharel em Biologia, com mais de 30 anos de atuação em gerenciamento, produção, pesquisa e desenvolvimento de cosméticos e Equipamentos de Proteção Individual (EPI), especialmente em cremes de proteção para a pele, protetores solares e repelentes de insetos. É coordenadora do Grupo ABNT/CB-032 – Cremes de Proteção, responsável pela normatização desses produtos como EPIs, e integrante do Grupo Setorial de Cremes de Proteção da ANIMASEG, onde atua como consultora técnica.