O Brasil possui cerca de 102 milhões de trabalhadores, segundo a PNAD Contínua. No entanto, apenas 41% deles têm registro formal. Isso significa que 59% da força de trabalho não se enquadra na legislação trabalhista — ou seja, atua sem exames ocupacionais, sem treinamentos e, na maioria das vezes, sem acesso a Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) adequados aos riscos de suas atividades.
Mesmo entre os trabalhadores registrados, a situação é preocupante. Apenas 58% dos empregados com carteira assinada atuam em empresas com mais de 50 funcionários — o limite mínimo estabelecido pela NR 4 para a obrigatoriedade da presença de profissionais de Segurança e Saúde no Trabalho (técnicos, engenheiros, médicos e enfermeiros do trabalho).
Isso significa que, para os outros 42% dos trabalhadores formais, não há nenhum profissional responsável por orientá-los sobre riscos, medidas preventivas ou uso correto de EPIs.
Quando somamos esses dois grupos — os que não se enquadram na legislação trabalhista (59% da força de trabalho) e os formais sem suporte técnico (42% dos 41% registrados) — chegamos a um dado alarmante: 76% dos trabalhadores brasileiros não têm qualquer orientação em Segurança e Saúde no Trabalho.
Fração da realidade
Essa constatação muda completamente a forma de interpretar as estatísticas oficiais de acidentes.
Em 2023, foram registrados 733 mil acidentes de trabalho no Brasil, segundo dados do Governo Federal.
Mas é importante lembrar que essas estatísticas se referem apenas aos trabalhadores com carteira assinada, ou seja, aos mesmos 41% da força de trabalho formal.
Portanto, os dados oficiais não refletem a realidade da maioria dos trabalhadores brasileiros.
Mesmo dentro do grupo formal, há subnotificação estimada em cerca de 11% dos casos, conforme o último levantamento oficial — embora especialistas considerem que essa subnotificação possa ser significativamente maior, especialmente em atividades terceirizadas, rurais e de alta rotatividade.
Com isso, os 733 mil acidentes notificados representam apenas uma fração da realidade nacional.
Retrato preocupante
Levantamentos independentes indicam que, considerando a informalidade, a falta de orientação e a subnotificação, o número real de acidentes de trabalho no Brasil pode estar entre 3 e 4 milhões por ano.
O resultado é um retrato preocupante: um país onde três em cada quatro trabalhadores seguem sem orientação, e onde as estatísticas oficiais refletem menos de um quarto da realidade.
É urgente ampliar a cultura da prevenção para além das empresas obrigadas por lei.
Todo trabalhador — formal ou informal — tem direito à proteção, à orientação e à informação sobre os riscos a que está exposto.
A Segurança do Trabalho não pode continuar sendo privilégio de uma minoria.



