Há datas que existem para celebrar. Outras, para lembrar. O 27 de julho pertence às duas categorias, mas, sobretudo, à segunda.
Há 54 anos, em 27 de julho de 1972, o Brasil estabelecia um marco na história da Segurança e Saúde no Trabalho. Naquele período, o país vivia o chamado “milagre econômico”, enquanto enfrentava uma realidade dramática: estimativas apontavam cerca de 1,7 milhão de acidentes de trabalho por ano. O cenário levou o governo a ampliar a estrutura de prevenção e a regulamentar a formação de profissionais de Segurança e Medicina do Trabalho. Na mesma data, foram publicadas as Portarias nº 3.236 e nº 3.237.
O dia 27 de julho nasceu, portanto, de uma necessidade concreta: proteger quem trabalha. Mais de cinco décadas depois, o Brasil tem uma estrutura muito mais ampla de normas, profissionais especializados, fiscalização, sistemas de gerenciamento de riscos e equipamentos destinados à proteção dos trabalhadores. Houve avanços importantes. Mas os números mais recentes mostram que a missão que deu origem à data ainda não foi concluída.
E talvez esse seja o principal significado do 27 de julho: lembrar que prevenção não é uma conquista definitiva. É uma construção permanente.
Quando a taxa cai, mas os acidentes aumentam
Em 2025, o Brasil registrou 806.011 acidentes de trabalho e 3.644 óbitos, segundo levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego. São os maiores números da série histórica de 2016 a 2025. Em relação a 2020, ano que apresentou o menor volume da série, o número de acidentes cresceu 65,8%; os óbitos aumentaram 60,8%.
Ao mesmo tempo, a taxa de incidência de acidentes caiu de 29,39, em 2016, para 17,94, em 2025. A taxa considera o número de acidentes em relação ao total de trabalhadores e, portanto, permite analisar a ocorrência de acidentes proporcionalmente ao tamanho do mercado formal.
Isso ajuda a entender uma aparente contradição: a taxa caiu, mas o número absoluto de acidentes aumentou. O mercado formal cresceu no período e, mesmo com uma incidência proporcional menor, o país chegou a 806.011 acidentes em 2025, o maior volume da série histórica.
Os dados mostram, portanto, que o avanço na formalização e na estrutura regulatória não eliminou um problema que permanece concreto: trabalhadores continuam sofrendo acidentes e famílias continuam convivendo com as consequências das mortes relacionadas ao trabalho.
Prevenção não pode ser apenas uma etapa burocrática do processo produtivo.
O que mudou desde 1972 e o que ainda precisa mudar
Para Raul Casanova Junior, diretor Executivo da ANIMASEG, é inegável que o Brasil percorreu um longo caminho desde os anos 1970.
A Segurança e Saúde no Trabalho passou a contar com normas, profissionais especializados, fiscalização, sistemas de gerenciamento de riscos e tecnologias de proteção coletiva e individual. Mas nenhuma norma, equipamento ou sistema é capaz, sozinho, de produzir uma cultura de prevenção.”
Para ele, segurança não acontece porque existe uma regra. Acontece quando ela é compreendida, aplicada, fiscalizada e incorporada à maneira como o trabalho é planejado e executado.
Prevenir significa identificar perigos antes que se transformem em acidentes, avaliar riscos, estabelecer controles, investir em proteção e capacitar pessoas. Significa também criar ambientes em que interromper uma atividade diante de uma situação insegura seja entendido como uma atitude responsável, e não como um obstáculo à produtividade”, reforça Raul Casanova.
Os números oficiais também não contam toda a história
Há ainda uma questão que precisa fazer parte desse debate: as estatísticas oficiais não representam necessariamente a totalidade dos acidentes e adoecimentos relacionados ao trabalho no país.
O Anuário Estatístico de Acidentes do Trabalho (AEAT) reúne dados sobre acidentes e benefícios de natureza acidentária registrados no país, a partir de informações como as Comunicações de Acidente do Trabalho (CAT) e os registros do INSS. O levantamento também considera situações identificadas por nexos técnicos previdenciários, mesmo sem CAT registrada.
Por isso, acidentes não registrados e determinados tipos de adoecimento relacionado ao trabalho podem permanecer fora das estatísticas disponíveis.
O retrato oficial é fundamental para dimensionar o problema e orientar políticas de prevenção, mas não necessariamente mostra toda a realidade brasileira.
E isso torna o desafio ainda maior: se os números que conseguimos medir já são preocupantes, é preciso considerar também aquilo que ainda não conseguimos enxergar plenamente.
Prevenção precisa fazer parte da cultura
O dia 27 de julho não deveria ser apenas uma data para campanhas, cartazes e mensagens de conscientização. É uma oportunidade para perguntar o que acontece no restante do ano: a segurança está presente nas decisões, nos processos, na escolha dos equipamentos, na capacitação, na manutenção e na gestão de riscos?
A cultura de prevenção aparece na decisão de não improvisar, na identificação de um risco antes que alguém seja exposto a ele, na liderança que não coloca segurança e produtividade em lados opostos e na compreensão de que voltar para casa em segurança é parte essencial do resultado de qualquer jornada.
Após 54 anos, o 27 de julho continua atual porque a razão que levou à sua criação permanece entre nós. O Brasil mudou. A legislação mudou. A tecnologia mudou. Os equipamentos de proteção evoluíram. Os processos produtivos se transformaram. O conhecimento técnico avançou.
Agora, a prevenção precisa avançar no mesmo ritmo”, afirma o diretor.
O verdadeiro objetivo da prevenção não é reduzir uma taxa, melhorar um indicador ou cumprir uma exigência.
É fazer com que cada trabalhador possa terminar sua jornada e voltar para casa. Todos os dias”, conclui Raul Casanova.
Fontes: Ministério do Trabalho e Emprego; Ministério da Previdência Social; Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde.






