A deficiência de oxigênio continua entre as principais causas de acidentes graves em espaços confinados e atmosferas perigosas. Ainda assim, especialistas alertam que o risco segue subestimado em muitas operações, principalmente pela falsa percepção de segurança gerada por ambientes aparentemente “respiráveis” e por leituras consideradas normais nos detectores de gases.
O tema é abordado no Boletim Nº 06, produzido pela Comissão Técnica de Estudos Normativos (CTEN) de Detectores de Gases da ANIMASEG, que discute aspectos técnicos relacionados à deficiência e ao enriquecimento de oxigênio, formas corretas de monitoramento e interpretação de atmosferas em espaços confinados.
O conteúdo reúne contribuições de especialistas que atuam diretamente em operações de campo e gestão de atmosferas perigosas, entre eles Eduardo Elias, diretor técnico para Brasil e América Latina da NIOB Gas Detection, e Carlos Carvalho, diretor da Ranger Lccm e especialista em espaços confinados.
De acordo com o Boletim, um dos erros mais perigosos ainda encontrados em campo é acreditar que, se o trabalhador consegue respirar normalmente, o ambiente está seguro.
Eduardo Elias explica que não é possível identificar com segurança a concentração de oxigênio apenas pela respiração e alerta que alterações repentinas podem comprometer rapidamente a segurança do trabalhador em espaços confinados.
O diretor ressalta que a única forma segura de quantificar o oxigênio em espaços confinados é por meio de detectores de gases calibrados e corretamente verificados antes do uso.
Atmosferas aparentemente seguras podem esconder riscos graves
As leituras dentro da faixa aceitável não significam, necessariamente, que a atmosfera esteja segura. Além da deficiência de oxigênio, outros gases tóxicos podem estar presentes em concentrações perigosas sem alterar significativamente o percentual de O₂ indicado no equipamento.
Carlos Carvalho explica que, mesmo dentro de faixas consideradas respiráveis, outros gases tóxicos podem estar presentes em concentrações perigosas.
Pequenas alterações na leitura de oxigênio podem representar mudanças atmosféricas muito mais relevantes do que aparentam.
Quando o equipamento deixa de monitorar 20,9% e passa para 20,8%, parece uma alteração pequena. Mas essa diferença de 0,1% equivale a 1.000 ppm. A maioria dos gases tóxicos possui limites de exposição abaixo de 50 ppm para uma jornada de trabalho”, diz Carlos.
Segundo ele, essa relação ajuda a ilustrar por que o monitoramento em espaços confinados não pode se limitar apenas ao sensor de oxigênio.
Os especialistas alertam ainda que oscilações desconhecidas na concentração de oxigênio devem ser tratadas com extrema cautela. O Programa de Proteção Respiratória (PPR) da Fundacentro classifica atmosferas com alteração de oxigênio sem causa conhecida como IPVS — Imediatamente Perigosas à Vida e à Saúde.
Processos de oxidação, utilização de gases inertes, reações químicas, soldagem, ventilação inadequada e até a respiração humana podem alterar rapidamente a composição atmosférica em ambientes confinados.
Monitoramento contínuo é indispensável
O Boletim nº 06 também alerta para um erro recorrente nas operações: considerar suficiente apenas a medição inicial da atmosfera antes da entrada no espaço confinado.
O detector mede uma condição momentânea da atmosfera. É preciso verificar frequentemente a leitura do equipamento até a saída segura do local monitorado”, orienta Eduardo.
A recomendação reforça a necessidade de monitoramento contínuo durante toda a atividade, já que a atmosfera pode sofrer alterações ao longo da execução do trabalho.
Detectores precisam ser testados antes do uso
Outro ponto importante apontado no material envolve falhas relacionadas à verificação dos detectores de gases. Segundo Carlos, ainda é comum encontrar profissionais utilizando equipamentos sem a realização adequada dos testes de resposta dos sensores.
Já auditei equipamento em que o teste havia sido realizado, mas um dos sensores não estava funcionando. Como o equipamento liberava sinal visual, sonoro e vibratório, acreditava-se que ele havia passado no teste”, relata.
O especialista explica que o detector depende simultaneamente do funcionamento químico do sensor e do sistema eletrônico que exibe as informações na tela.
Às vezes, o visor apresenta 20,9%, mas o sensor não está realizando corretamente a reação química necessária para transmitir uma informação confiável”, alerta.
Por isso, o teste de resposta diário antes do início das atividades é apontado como etapa essencial para garantir confiabilidade nas medições.
Acidentes em espaços confinados frequentemente atingem equipes de resgate
Outro alerta envolve o elevado número de vítimas secundárias em acidentes com atmosferas perigosas. Segundo Carlos, em muitos casos trabalhadores tentam realizar resgates improvisados, sem proteção respiratória adequada e sem avaliação prévia da atmosfera do ambiente.
Em cada 10 vítimas, seis são pessoas que tentaram ajudar a vítima primária”, afirma o especialista.
O profissional ressalta que, antes de acidentes fatais, geralmente já ocorreram diversos sinais de alerta, como mal-estar, tontura, atividades sem monitoramento ou liberações realizadas sem avaliação adequada do ambiente.
Uso isolado de monogás ainda preocupa
Carlos Carvalho também chama atenção para o desconhecimento sobre a formação de gases tóxicos em determinados ambientes considerados aparentemente seguros.
Ele cita como exemplo ambientes aparentemente simples, como reservatórios de água ou locais com madeira molhada armazenada sem ventilação adequada, que podem gerar sulfeto de hidrogênio (H₂S).
Por isso, a NR-33 e a NBR 16577 priorizam o monitoramento simultâneo de oxigênio, inflamáveis e gases tóxicos por meio de detectores multigás.
Excesso de oxigênio também representa risco
Além da deficiência de oxigênio, o Boletim aborda um outro tema ainda pouco discutido nas operações: o enriquecimento de oxigênio. De acordo com Eduardo, concentrações acima de 23,5% podem acelerar drasticamente processos de combustão e aumentar significativamente o risco de incêndios e explosões.
Segundo Eduardo Elias, o enriquecimento de oxigênio ainda é um risco pouco percebido nas operações industriais e pode aumentar significativamente o potencial de combustão dos materiais. Isso porque atmosferas enriquecidas reduzem a energia necessária para ignição e tornam materiais comuns muito mais inflamáveis.
Materiais comuns, como roupas de algodão, borrachas, graxas e até alguns metais, podem apresentar combustão acelerada em atmosferas enriquecidas com oxigênio. Entre as causas mais comuns estão vazamentos em sistemas de oxigênio, falhas em processos de purga industrial e uso inadequado do gás para ventilação de ambientes.
Cultura preventiva ainda é desafio
Para os especialistas, além das questões técnicas, a prevenção ainda esbarra em falhas culturais relacionadas à percepção de risco e ao cumprimento mínimo das exigências legais.
Eduardo Elias avalia que muitas empresas ainda adotam uma postura reativa em relação às medidas preventivas de segurança.
Carlos Carvalho defende que as análises de risco sejam objetivas, eficazes e compreensíveis para todos os envolvidos na atividade.
Recentemente, o tema também foi debatido em live técnica promovida pelo CTEN Detectores de Gases da ANIMASEG, disponível no canal YouTube ANIMASEG EPI: https://www.youtube.com/watch?v=fKVF-8XRW1o
O Boletim nº 06 – Deficiência de Oxigênio: causa, medição, limite e controle de segurança está disponível para download em: https://drive.google.com/drive/folders/1ZJXffCi9uKp8qKIsrF1cAUSxrtImjPVv





